Marina’s Birth Story (in Portuguese)

O meu parto começou varias semanas antes do nascimento da Marina, quando eu parei de trabalhar e comecei a me preparar mais ativamente para dar a luz a Marina. Esse seria o meu segundo parto, eu tinha dado a luz dois anos antes meu filho John, num hospital em Miami. Tomei anestesia com 4 cm de dilatação e aos 9,5 cm me deram oxitocina sintética pois eu aparentemente não estava progredindo. Em jejum de 17 horas, comecei a expulsão e demorei uma hora e quarenta minutos empurrando ele. Depois de uma episiotomia e laceração do terceiro grau, ele nasceu lindo e saudável (ainda que estivesse gritando muito). A enfermeira que me ajudou disse que eu “quase” tive uma cesariana.

Na minha preparação, eu sabia que se quisesse ter um parto natural, sem anestesia, teria que desligar meu neocortex cerebral, e ficar só com meu cérebro primitivo, o “brain stem”. Minha irmã já tinha me ensinado isso, e eu também já tinha aprendido isso com o livro da Ina May, Guide to Childbirth, e o da Pam England, Birthing from Within. Então, tentei me ligar muito nesse evento que estava por chegar, e não pensar em afazeres, trabalho, problemas e preocupações. Tudo isso pode desencarrilhar o parto, a cabeça tem que estar livre de pensamentos….

Varias vezes fiz preparações, inclusive com o meu marido Steve, para a dor. Eu punha a mão inteira na agua com gelo, doía a beca, e também doía logo de cara (a “dor” das contrações do parto começa fraquinha e vai aumentando, como um trem que você vê chegando ao longe, faz o maior barulhão quando passa, e depois gradualmente o silencio volta…). Durante essas sessões de treinamento, o que mais eu notava era essa de ter que estar “fora de mim”. Eu já tinha ouvido tantas mulheres falarem na necessidade de “surrender” – entrega total. Então, a primeira entrega e entregar o seu neocortex… Nas minhas praticas, descobri que o que me ajudava muito era a respiração profunda, aroma terapia, a presença do Steve e principalmente musica. A musica era uma bem-vinda distração. A minha parteira, Corina, tinha me dito que a dor do gelo não se comparava com a dor do parto, mas que era uma ótima maneira de perceber o que pode funcionar na hora “H” (ou horas….)

No domingo, dia 7, a noite, comecei a sentir contrações, mas vinha sentindo essas tais contrações Braxton-Hicks (de pratica) já ha umas 2 semanas, principalmente quando amamentava o John. Elas estavam doendo só na frente, então não achei que eram ainda as do parto. Fiquei sentindo elas ate umas, sei lá, 3 da manha, mas elas foram embora, e eu consegui dormir OK. De manha, mandei uma mensagem para as minhas parteiras Corina e Sheila, e elas me disseram para descansar naquele dia pois eu provavelmente começaria a senti-las outra vez naquela noite. Já estava tudo preparado para o parto, a agua de coco pronta para eu tomar (devem ser 4 onças de liquido por hora durante o parto – no hospital eles só te dão gelo), todos os apetrechos (toalhas, toalhinhas para refrescar a mãe e para a parteira apertar o períneo, etc), comida para as parteiras… Ate a piscina inflável o Steve já tinha inflado uma vez para treinar. Eu me sentia pronta.

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Na segunda feira, fui ao dentista pois tinha uma dor de dente. Ela quis tirar radiografia mas eu claro não deixei. Ha, eu já tinha esperado quase 41 semanas, não era agora que eu ia tirar raio-X! Como eu não ia fazer nada com a informação do raio-x mesmo, decidi fazer depois do parto. Fui pra casa, almocei, e deitei na cama por 2 horas, tentando seguir a recomendação das parteiras. Foi bom, mas acho que dormi só uns 20 minutos… Mais tarde, recebi uma ligação pelo Skype de uma amiga, que estava em casa por ocasião do aniversario do seu segundo filho, que se chama Joao e tinha nascido em 2013, semanas antes do John. Eu não falava com ela ha meses, e ela foi me ligar justo nesse dia? Achei que aquilo poderia ser um sinal… Como eu estava sentindo contrações esporádicas, mas estava calor demais para ir caminhar, decidi me encher de repelente (natural) e convidei o Steve e o John para irem lá fora comigo fazer jardinagem. A gente ficou uma hora lá fora, e ate que fizemos excelente progresso no jardim!

De tanto agachar e levantar para tirar matinhos do chão, a coisa engrenou… Demos banho e jantar pro John, comemos, e depois fomos botar ele pra dormir. Sei que quando ele estava mamando, eu, que sempre tinha contrações fraquinhas quando ele estava no peito, tive uma tão forte que eu implorei pro Steve tirar ele dali!

Foi um pedido meio selvagem, achei que estava perto. E estava certa: as contrações foram ficando cada vez mais poderosas e intensas. As 9:40, pouco depois do John dormir, mandei uma mensagem de texto para as parteiras para elas ficarem de sobreaviso. Uma hora depois, a Corina me ligou e eu relatei que sentia dor na parte de baixo das costas (perto do sacrum) e também na frente. Ela disse que eu devia ficar 20 minutos de quatro, para ajudar a bebê a encontrar uma boa posição para descer. Fiz isso, e depois falei pro Steve que ia me deitar na cama, para tentar descansar… Ledo engano! As contrações se intensificaram ainda mais, e o Steve tinha que ficar do meu lado. Quando eu via o trem chegando ao longe, ficava de quatro e avisava a ele. Ele tinha que vir por cima e botar muita pressão nas minhas costas, para me ajudar a lidar com a dor. Eu respirava fundo, como tinha aprendido e praticado, e dizia, em um tom de voz grave: “ooooopppppeeeeennnn” (lá pelo meio da noite, não sei que horas, eu também falava “aaaaabbbbbrrrrrreeeeee….”). Ajudava muito vocalizar a dor. Isso tudo e o John dormindo. Santo!

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Ficamos nessa ate as 2 da manha, contando as contrações num app que existe pra isso. Eu ainda não tinha certeza que estava em trabalho de parto ativo (contrações de 5 em 5 minutos, um minuto de duração, por uma hora), porque as contrações não vinham sempre de 5 em 5. Quando eu fazia movimento, elas vinham assim, de 2 em 2 minutos, mas se eu ficasse deitada demorava uns 8. De qualquer forma, as 2 da manha, eu já estava com certeza de que tínhamos que chamar as parteiras, então o Steve ligou e tentou falar com as duas. A Corina disse que estava vindo, o que dai me deu um alivio danado. Ela também perguntou para o Steve se ele já tinha inflado a banheira, e ele não tinha, e começou a faze-lo logo, o que me deixou sozinha sem o meu parceiro de massagem nas costas e me deixou um pouco com medo. Eu pedi para ele esquentar o Bed Cowboy (como a gente chama aquela meia de arroz que bota no microondas) e eu punha o calorzinho nas costas quando vinha a contração. La pelas tantas, eu não queria ficar sozinha mais, então fiquei de quatro no sofá ao lado do Steve inflando a banheira, e para minha surpresa o barulhão da bomba de ar me ajudava ainda mais a viajar nas contrações…. Eu achava que ia me incomodar, mas o parto e uma experiência tão maluca, em que o corpo produz as próprias drogas (a endorfina, a morfina que vem de dentro do corpo – “endo”), que qualquer coisa que te ajude a ‘viajar’ ajuda na hora do parto. Fiquei bem, sozinha, e ele logo terminou de inflar a banheira. Voltamos para a cama. As minhas coxas inteiras estavam dormentes e com muito formigamento, igual a como ficam durante uma forte menstruarão. Eu estava me hidratando, com a ajuda do Steve, então sentia sempre vontade de ir fazer xixi. Toda vez que sentava no vaso sentia contração.

Logo as parteiras chegaram – primeiro a Corina, depois a Sheila. Elas estavam tão quietas, eu quase nem percebi, mas essa era mesmo a ideia: não me tirar da minha “viagem”. O Steve e elas cuidavam da logística, e acho que assim que chegaram elas começaram a ajudar o Steve a encher a piscina. Eu não estava nem ai para as horas, ou o que eles faziam, só conseguia me concentrar nas contrações e em como lidar com elas. De vez em quando a Corina ou a Sheila ou o Steve vinham e me faziam um carinho ou me davam um encorajamento se eu precisasse.

Uma bela hora, a Sheila me perguntou ha quanto tempo eu não fazia xixi. Como o Steve tinha estado lidando com a banheira, tinha um tempo mesmo que eu não ia, então eu fui. Quando sentei, veio a contração, mas também senti pela primeira vez um “tum-tum” que parecia se telegrafar pelo meu tronco inteiro ate o meu bum bum, e foi curioso. Voltei pra cama e a próxima contração também tinha tum-tum. Eu já não tinha mais duvida: era o meu corpo empurrando involuntariamente a Marina. Eu fiquei meio impressionada com a intensidade dessa sensação, então contei pra Corina. Ela disse com a voz mais calma do mundo que se eu não estava forcando, se era um coisa involuntária, que eu devia apenas tentar respirar quando viesse a contração e que tudo estaria bem.

Depois de um tempo, a Corina veio me perguntar se eu queria entrar na banheira. Não tinha noção da hora, ainda estava escuro lá fora. Devia ser umas 5 da manha, pois elas tinhas chegado perto das 4 (eu fiquei sabendo só depois) e deve ter demorado um hora para aprontar a piscina.
Quando eu entrei na agua, foi um alivio ENORME! Sinceramente, não sei como alguém pode não escolher ter o parto na agua.

Parece que foi logo depois que eu entrei que as contrações se intensificaram MUITO. E como se o corpo dissesse: OK, agora deu uma aliviada, então VAMOS LA!! Só posso dizer que agora sei porque aquelas piscinas tem alças de plástico por todos os lados. Para a mulher poder se segurar em varias posições!! Caramba, a intensidade das contrações, fisicamente era como se estivesse correndo uma corrente elétrica muito alta pelo meu corpo inteiro, e um TUM-TUM-TUM-TUUUUMMM danado lá embaixo no meu bum bum. O Chico Buarque e a Maria Bethania rolando no ipod, e eu só sentia aquele trem me sacudindo inteira, a sensação de que eu ia quebrar em duas metades, como um ovo. Ai me lembrava da Ina May, que no livro dela falava: “Eu nunca vi ninguém quebrar ao meio”, e me tranquilizava. Eu também viajava MUITO na musica. Quando vinham as contrações, eu segurava BEM FIRME nas alças e deixava aquela corrente passar por mim, grunhia varias vezes com cada TUM, que nem um animal. Não tinha mais nada a fazer.

Eu estava curiosa, e certa hora botei os dedos lá dentro e tentei sentir a cabeça da Marina. E senti!! Quase o comprimento inteiro dos meus dedos, que na hora parecia muito mas se você parar pra pensar e bem perto! Depois a Corina me disse que ficou impressionada que eu senti o cabelinho dela, pois a minha bolsa estourou apenas uns minutos antes dela nascer. Sentir ela me deixou feliz, mas de novo perguntei a Corina se “eu” poderia estar “empurrando” (não era bem eu, era involuntário) ela contra um “cervix” ainda não totalmente dilatado. Ela disse que se eu sentia a cabecinha dela ali, e porque já não tinha mais nenhum cervix. Nessa hora, eu sabia que estava livre para ter ela! Pedi para a Corina me examinar (ela não tinha me examinado ainda, e acabou não precisando examinar nem uma vez!) e ela perguntou, com uma voz doce: “Eu posso, se você acha que essa informação vai te ajudar…” Eu, como não tinha tempo nem cabeça de me mexer pra ela chegar perto de mim, desisti de qualquer exame…. Eu mesma me examinei umas contrações depois e ela tinha descido mais! Eu ficava dizendo para mim mesma: “I can do it, I can do it…” ou “Eu posso conseguir, eu posso conseguir” e a Sheila dizia” “Você esta conseguindo”…

O meu cunhado veio pegar o John como previamente combinado pelo Steve, sem a minha ciência. No que pareceu trinta segundos o Steve tirou ele da cama e deu pro meu cunhado na porta. Não sei se ele teve que esperar, mas parecia que foi tudo ensaiado perfeito, eu nem reparei, o Steve foi ótimo nisso, ele fez com que eu não tivesse que me preocupar com o John.

Não sei que horas eram, acho que foi logo depois do John ir embora, mas o Steve sugeriu que eu me agachasse… Ele me lembrou o quanto eu falei que se agachar era uma coisa ótima para o parto, e o quanto eu pratiquei, etc, etc (realmente, eu tagarelei muito sobre isso).
Eu sabia que se eu me agachasse ia ser muito intenso, e tinha receio, mas mesmo assim experimentei. Tomei coragem e fui… PUTZ! Foi intenso! Bem difícil, mas parece que tive progresso, e acho que depois dessa a cabeça da Marina começou a aparecer. Eu me agachei nas duas próximas contrações (me lembro de pensar que eu tinha que me agachar se quisesse que ela nascesse, e num surto de adrenalina tomei coragem outra vez) e na primeira contração agachando de novo comecei a sentir aquela queimação! Caramba! Queimou MUITO! Eu não me lembrava bem dessa sensação no parto do John, pois naquele parto era tudo caótico, então o “caos” da queimação não tinha contraste com nada. Mas aqui, a única parte mais caótica foi essa. Outra coisa importante foi que involuntariamente eu soltei um “AAAAAAAAAAAA” bem alto e longo, e isso me ajudou a lidar com o “ring of FIRE”! Acho que depois dessa contração a Corina perguntou ao Steve se ele ia pegar a Marina, e ele categoricamente disse que não! 🙂 Eu me lembro que essa pergunta não me fez pensar que eu estava próxima, acho que porque no parto do John demorou bem mais… Depois dessa contração, a Sheila veio para medir o batimento cardíaco da Marina, e ele tinha abaixado, para uma faixa normal para o crowning, para 90 ou 100 por minuto (antes estava em 135). A Sheila mandou eu respirar fundo, e eu o fiz!
Eu sabia que vinha a próxima contração, e de novo o FOGO! Corina ficava tentando me seguir, me acompanhar, com uma toalhinha para proteger o meu períneo, mas eu me mexia freneticamente tentando me preparar para aquilo. Foi intenso!

Quando, depois da segunda contração, de queimação, agachando, o Steve me disse que a cabeça da Marina estava pra fora, eu não acreditei! Eu ainda não tinha dado a luz ao corpo dela, mas fiquei tão FELIZ!

Eu ainda estava em estado de choque, mas a Sheila disse: “Vai, empurra a sua filha”, e eu não conseguia processar esse pedido! Eu não tinha empurrado nenhuma vez, voluntariamente, então achei que tinha que esperar a próxima contração. Não fiz nada. A Corina me perguntou (depois percebi que naquela hora ela estava meio ansiosa): Você esta empurrando?? E eu obviamente não estava. Fiz uma forcinha e VUMMM! O corpo dela saiu de uma vez só, em um ou dois segundos! FOI COMPLETAMENTE INCRIVEL! Elas puseram a Marina no meu colo, coberta por uma toalha que elas tinham posto para aquecer no heating pad. Eu fiquei ali, envelopada pela sensação de ter conseguido aquilo, de ter dado a luz a minha filha, sem anestesia, sem episiotomia, sem caos e sem medo, me sentindo tão poderosa e ao mesmo tempo sentindo uma enorme GRATIDAO!

1795718_952699928085875_765957278147851985_nMarina nasceu as 7:37 da manha, com 3,6 Kg e 56 CM.
A Corina logo disse que o cordão tinha uma cor azul linda, e ele era longo o suficiente que eu pude segurar ela no colo. Depois de uns 15 minutos veio outra contração forte, e a placenta saiu de uma vez, junto com a bolsa estourada. A Marininha estava toda escorregadia, ainda com as gosmas do útero….

Depois de mais uns minutos, eu sai da piscina e me deitei no sofá ao lado… O Steve ficou segurando a Marina e as parteiras me examinaram. Eu tive um pequeno rasguinho na parte de baixo somente, e Corina me deu três pontos. Comi um pouco de mamão e umas uvas, e tomei agua de coco. Estava muito faminta e sedenta!

Logo consegui fazer xixi, mas tive pressão baixa no banheiro e tive que deitar no chão. Comi queijo e agua de coco no banheiro e consegui ir engatinhando ate a cama. Depois de mais um lanchinho, minha pressão voltou ao normal, e eu fiquei ali só relaxando enquanto o Steve segurava a Marina e as parteiras limparam e arrumaram tudo!

As 11 horas mais ou menos, Corina e Sheila fizeram o exame de newborn da Marina no pé da cama, comigo ainda deitada ali, e o Steve em pé ao lado. Ele cortou o cordão umbilical, que já estava completamente branco pois todo o sangue tinha ido da placenta para a Marina. Acho que e por isso que ela ficou tão rosinha…

As parteiras foram embora e deixaram a gente sozinhos ali, com a Marina agora do lado de fora do meu corpo, eu tinha parido ela, e partido com ela para uma vida nova! Eu já não era mais a mesma!

11390139_952699991419202_7532791360122295808_nEssa experiência foi incrível. Essa transição para a maternidade, agora de dois filhos, de forma natural foi muito bacana. Eu sou eternamente grata ao apoio que recebi da minha família, das minhas parteiras, da minha amiga Sandy que tinha dado a luz com a ajuda da Sheila, do meu amado marido Steve, que abraçou essa aventura comigo de corpo, alma e espirito, dos meus filhos John – que dormiu a noite toda e quase viu o nascimento da irmã e Marina – que fez essa viagem comigo – e a Deus, que me conduziu nesse trajeto sem mapa que e o parto.